18
jun

O maior flashmob do mundo

Eu estava angustiado. Por diversos motivos. Me mudei de cidade, fiquei sem Internet fixa (restrito ao celular) e tudo aconteceu bem na semana das manifestações do Movimento Passe Livre. Fiquei angustiado por não poder ver todos os vídeos e fotos compartilhados, por perceber que muita gente estava compartilhando informações falsas, por ver a mídia primeiro ignorando, depois atacando e depois subvertendo o movimento, e eu semi-mudo porque não consigo me expressar em poucas palavras e digitar no celular é uma tortura.

Passado o período offline eu pude perceber que foi melhor assim. Que tinha que ser dessa forma. Eu pude então perceber o quão vazio estava me sentindo com relação a isso tudo. Perceba, não sou, nunca fui, contra manifestações e protestos. Eu mesmo participei de alguns na adolescência, incluindo aí aqueles que culminaram na saída de Collor da presidência. Eu estava lá, e mesmo sem idade para votar ainda (tinha entre 14 e 15 anos), participei ativamente dos protestos e fiz parte do Grêmio Estudantil da minha escola.

O motivo do vazio

Propósito. Eu vi um movimento legítimo e inicialmente pequeno tomar as ruas, clamando o cancelamento do aumento do transporte público. Esse movimento inicial tinha um propósito bem claro, muita vontade e raiva acumulada. Essa raiva, pelo aumento, pelas condições do transporte público ou simplesmente pela idade (todo mundo já passou por essa fase), levou a galera pras ruas, com muita sede de fazer esse propósito virar realidade. Não vou entrar no mérito da utopia do Passe Livre, vou focar no movimento, ok? Essa galera foi com tanta sede que se excedeu. O pau comeu na rua, houve vandalismo, pichações, vidraças quebradas, lixeiras incendiadas e muita, mas muita porrada da polícia.

Daí já era, o movimento tomou corpo. A polícia, sem querer, desencadeou o processo todo. Se não houvesse violência policial, as manifestações não teriam tomado as proporções que tomaram. O movimento se agigantou, agregou muito mais gente, insatisfeita com muita coisa (legítimamente insatisfeita) e com diferentes propósitos e bandeiras. Os líderes iniciais do movimento perderam a liderança. O movimento se auto-proclamou sem liderança, sem partido e “não somente pelos 20 centavos”.

Protestos no Brasil

Ontem tivemos um belo exemplo disso. Em São Paulo, a turma se dividiu em três, uma parte desses liderada por um partido político – apesar das pessoas clamarem pela ausência de partidos. Alguns dizem que foi pelo número de pessoas, eu digo que foi pela divergência de opiniões, falta de liderança e objetivos, falta de direção – sendo literal sem querer.

Não é só pelos 20 centavos. É por tudo. Mas que tudo é esse? As respostas à pergunta “por que você veio protestar” vinham em sua maioria evasivas com algo como “não vejo motivos para não protestar”. Traduzindo: “não sei, vim apenas para protestar”. O protesto pelo protesto ganhou as ruas, a vontade de participar (sentimento de bando) era maior que as razões para participar. A vontade de “mostrar o poder das redes” e que a “revolução (sic) não será televisionada” era o sentimento coletivo.

O Brasil protagonizou o maior flashmob da história

Hoje eu tive essa epifania. A vontade de fazer parte (social), de mostrar o poder de mobilização das redes (sharing), a quantidade diversa de propósitos e a ausência deles (crowdsourcing), o clamor para que cada vez mais gente compareça (viral), as táticas para confundir a polícia (troll huehuehue brbrbr) e não indicar liderança para que eles não tivessem com quem negociar o trajeto (for the lulz) é tudo característica da Internet, da geração flashmob.

Eu vi muita gente compartilhando a beleza do movimento – e realmente foi muito bonito, uma aglomeração enorme de pessoas, marchando pacificamente e com palavras de ordem, com cartazes criativos, fantasiados, mascarados, pintados, foi um show mesmo. Vi as “hashtags” preencherem todas as timelines, vi aplicativos serem criados da noite para o dia para apoio ao movimento, vi a mídia mudar o foco das reportagens, vi a polícia mudar o comportamento, vi muita vaidade, vi arrogância e também vi muita ingenuidade.

Se o objetivo foi chamar a atenção, conseguimos. Um flashmob atinge seu auge quando as pessoas participam e divulgam, organicamente, chamando atenção de outros muitos. E nós fomos manchete na imprensa internacional (para o bem e para o mal). Chamamos atenção do mundo sem o assunto ser futebol ou carnaval (embora tenhamos usado um pouco o futebol e nossa festa tenha sido similar a um carnaval).

Do futuro, não sabemos, mas temos esperanças

Há quem diga que “o gigante acordou”. Eu sou descrente. Eu vi uma manifestação maravilhosa sem propósitos. Me deu vazio e vi muita gente que participou, voltar da passeata com a mesma sensação – embora a maioria esteja maravilhada com o poder de mobilização. Entendo perfeitamente, essa galera nunca viu algo assim. Eles não participaram do Diretas Já, não tinha idade para entender o Fora Collor. Essa é a primeira grande manifestação da qual fizeram parte, ativamente. É como ir num estádio de futebol lotado pela primeira vez. Êxtase define. E ai de quem for contra ou expressar qualquer sentimento ou opinião negativa. Eles removem você de suas timelines, talvez até você leve um “block”.

Eu sigo no meu vazio, esperando que dessa festa de ontem nasça alguma coisa. Que caiam as fichas da desorganização e se unam para gerar propósitos. Quem sabe alguns resolvam participar da política pelo lado de dentro, para tentar mudar. Quem sabe comecem a votar certo, a cobrar dos seus eleitos, a acompanhar as decisões do país. A fazer mobilizações, menores mesmo, com foco, com exigências, direcionadas às pessoas certas para atingir objetivos comuns ou de grupos, ué, todo mundo tem direito.

Eu sei, você sabe, que o gigante não acordou porra nenhuma, mas que somos milhares de anões que, juntos, podemos fazer alguma coisa. E não necessariamente isso exige protestos e manifestações. Muitas vezes se resolve com reuniões, assembléias, outros mecanismos da democracia.

Ao contrário do que a garotada bradou ontem, quem não foi pra rua não está sentadinho vendo TV e caladinho. Tem muita gente boa trabalhando pra mudar esse país, e as possibilidades são infinitas. Já acordamos? Vamos arrumar a cama, o quarto, lavar a louça do café da manhã e partir para verdadeira revolução, que é interna.

Acorda, Brasil!

16
abr

Natalia Paruz, the SawLady

SawLadyUPDATE: This interview was translated to portuguese, but you can access the Google Translated page here.

A Internet, vez por outra – quando me dou a chance, quando estou aberto a percebê-la de outras maneiras – me surpreende e me encanta. Algumas coisas que acontecem, eu simplesmente não acreditaria se tivessem me avisado 20 anos atrás. E que bom que acontecem.

Alguns dias atrás, eu estava em casa vendo filmes. Foi uma sessão de Cinema em Casa, porque estava friozinho, gostoso, ótimo pra ficar em casa debaixo das cobertas. Que melhor motivo? Daí, como de costume, eu fiz um comentário sobre um dos filmes (Another Earth / 2011) no Twitter. A surpresa foi que, lá de longe em New York – USA, a artista que tocou a música do momento mais interessante do filme, me respondeu com uns links sobre o seu trabalho.

Senti como de outra vez quando fiz um comentário qualquer para o Kevin Mitnick, o hacker mais famoso do mundo, e ele me respondeu. É muito interessante essa sensação de proximidade, que boa parte dos mais novos não percebe porque já nasceu nessa realidade, nesse mundo conectado e com 6 graus de separação.

Rapidamente eu dei uma pesquisada na SawLady (a “Moça do Serrote” numa tradução tosca minha) e vi várias coisas sobre seu trabalho e sua arte. Entrei em contato, batemos um papo via Twitter e perguntei se ela responderia umas perguntas para o blog. Natalia Paruz é uma moça de Israel, muitíssimo simpática e talentosa, moradora de New York e sua arte é tocar um instrumento inusitado: o serrote (musical saw). (mais…)

24
nov

Sobre Gabriel e Eu

Eu estava assim, num bar, com colegas de trabalho (e amigos), comemorando o sucesso de mais uma etapa bacana da empresa em que trabalhamos, devidamente cumprida com louvor. De boa, depois de já ter bebido algumas cervejas e interrompido o plano da noite, que era comemorar o aniversário de uma amiga, há alguns kilômetros dali. Nada é por acaso, por certo.

Gabriel chegou de mansinho, franzino para seus 13 anos (segundo ele mesmo disse ter), vestido de xerife, veja só, com coletinho e estrela dourada, vendendo cartelas de adesivos. Nos pediu licença e perguntou se nós compraríamos (eu e a namorada) uma cartela de adesivos, caso ele falasse “obrigado” em 20 idiomas. Por R$ 10, eu fiquei curioso com aquele menino e pedi que ele pronunciasse, muito mais para ajudá-lo que por uma cartela de adesivos, visivelmente muito mais baratas que os dez pilas que ele cobrou.

Gabriel rezou seu terço, pronunciou sua decoreba em vários idiomas (eu não contei, já tinha tomado umas cervejas, lembra?) e nós começamos a conversar. Descobri que ele é filho de uma baiana, que nasceu num ônibus vindo para São Paulo (não sei se era história ou  “estória”) e que cursa a 6a série (sétimo ano, na nova contagem), mora em Guaianazes só com a mãe, pois seu pai já havia falecido.

Gabriel me emocionou.

No alto dos seus treze anos, inglês “aprendido in the street” muito bem pronunciado, espanhol enrolation também bacana, Gabriel me emocionou. Não sei porque cargas d’água eu me vi em Gabriel. Tenho pai vivo, minha mãe não me pariu num ônibus (e ambos moram em Salvador ainda) mas eu me vi em Gabriel. Comecei a trabalhar muito cedo, muito mais por vontade que por necessidade, sei o quanto é duro conciliar trabalho e escola, e talvez por isso chamei ele de canto e dei apenas um conselho pra ele: “muitas vezes, durante a vida, a gente pensa em largar escola e ir trabalhar, ganhar a vida, mas não faz isso não. estuda, se dedica, você tem talento e garra e vai se dar muito bem na vida”. O conselho que eu ouvi muitas vezes e de certa forma ignorei.

Sou muito grato à sorte que tenho. Nunca me dei muito mal na vida, embora tenha tido muita chance de me f*der. Me considero alguém de sorte, e claro, dedicado. Não fosse sorte e dedicação, talvez tivesse tomado outro rumo. Mas sou grato. E como sei que nem todo mundo tem sorte, infelizmente, me senti na obrigação de dar a dica pro Gabriel. “Estuda, meu filho”.

Espero que ele ouça. E se dedique. Ou que tenha também sorte. Porque talento não lhe falta.

Fui pra casa refletindo sobre isso. Minha sorte, as pessoas que me cercam, e Gabriel. Gostaria mesmo era de tê-lo levado pra casa, adotá-lo. Mas ele tem mãe, tem casa, tem responsabilidades (claro, por que outro motivo ele estaria na rua, tão longe de casa, vendendo adesivos às 23h30?). E chorei. Não sei se foi a cerveja, o Gabriel ou minha própria vida. Mas chorei feliz.

Muito obrigado, vida. Muito obrigado, Deus. Muito obrigado, vocês todos, que fizeram e/ou fazem parte disso tudo.

Beijo no coração.

E toda sorte do mundo ao Gabriel. Não somente ao que conheci hoje, mas a tantos Gabriéis que existem por aí.

10
set

Sobre a dicotomia que é morar em São Paulo

Bandeira de SPEsse é um texto sobre alguns temas comuns e recorrentes nas redes sociais por essas bandas, não necessariamente sobre a cidade de São Paulo em si, mas eu não queria colocar um título direto e objetivo, porque não quero gerar flames com “leitores de títulos” aqui neste meu blog.

Então, para opinar, se prepare, você tem que ler o texto todo ;-).

Hoje pela manhã ao acordar, dou uma olhada no meu Twitter e percebo uma mensagem que considerei infeliz (e foi o que respondi: “que comentário infeliz”). Depois de receber uma resposta, resolvi que escreveria esse texto. Não como uma “réplica”, mas como uma proposta de reflexão. De todo mundo. Eu inclusive, reflito enquanto escrevo e provavelmente reescreverei trechos antes de publicar.

Os temas citados no primeiro parágrafo são: preconceito, discriminação, infantilidade, inocência e ignorância. Eu coloquei infantilidade no meio porque normalmente falamos por falar, cuspimos a nossa opinião na cara dos outros com a alegada justificativa da sinceridade, do “falo o que penso”, do nosso Dr House interior, mas eu vejo muitas vezes apenas como aquela criança que aponta o coleguinha deficiente da primeira série e diz: eu tenho dois braços e você não te-em. (mais…)

2
set

Antes dos 40

Pare, Olhe, Escute

Aos 30 anos acordei com uma decisão: iria sair de Salvador. Por diversos motivos, mas o principal é que eu não me sentia mais cabendo naquela cidade. Precisava de mais, e saí em busca disso, acabando por parar em São Paulo. Hoje, quase 6 anos após ter saído de Salvador, e um pouco mais de 4 anos em Sampa, acordei querendo muito mais.

Ontem, dia 1, fiz 36. Fora de todos os ciclos, um número quebrado, nada cabalístico, mas que encerra um número cheio de significados, o 35.

Fiz uma lista de coisas que quero realizar antes dos 40 anos. Não escolhi por nenhum motivo especial a idade dos 40, apenas pensei num prazo, num tempo, e foi o número “cheio” mais interessante. Tem coisas que não me imagino fazer depois dos 40 anos, então, foi o limite que estipulei.

Pular de paraquedas, fazer uma tatuagem, viajar de mochilão, operar minha miopia e me ver livre de óculos pra sempre. Essas são algumas das coisas que estão na lista. Tem muita coisa impublicável também (ahahaha), mas por motivos óbvios não citarei ;-). Mas o mais importante da lista não são os ítens, mas a lista por si só.

Fazer planos não é exatamente meu comportamento padrão. Eu sou mais de fazer o que rolar, o que der na telha, o que pintar, no tempo que acontecer, no momento em que a oportunidade surgir. E por isso, ontem, por exemplo, o dia do meu aniversário, eu não fiz absolutamente nada de diferente. Fiquei em casa, de boa, porque absolutamente nada surgiu pra me tirar daqui. E essa é uma das coisas que quero mudar: fazer acontecer. Não que ficar em casa tenha sido ruim, apenas foi igual.

A lista é um lembrete, uma coisa que estará sempre lá, me chamando atenção das coisas que quero realizar e ainda não me movi na direção delas.

Quando rolarem experiências legais, eu conto por aqui. A propósito, 2 itens já foram nas primeiras semanas :)

30
abr

Eu já fui mais poeta

Minha guita - Ibanez GRX40PW

E mais desenhista. E mais tocador de violão e um tantão de outras coisas “artísticas” que sempre achei que, quando eu crescesse, era o que eu me tornaria.

Faz tempo que não desenho com alguma dedicação, apenas rabisco (normalmente durante reuniões). Há tempos eu não escrevo poeticamente, mas de vez em quando mando uns haikai no Twitter. Sinto saudades das horas tentando tirar uma música no violão, e do caderno de músicas que eu carregava. Hoje, uns 20 minutos por semana arranhando as mesmas músicas da adolescência.

Tanta coisa já passou por esse corpinho de 25, apesar dos 35, e eu acabei seguindo um caminho mais técnico, mais numérico, e pouco artístico. Ou, quem sabe, também exista alguma arte em encontrar soluções para integrar um banco de dados com um formulário na internet, ou criar alguns cálculos no Excel para resolver questões complicadas e repetitivas.

Sei lá, pode ser.

Talvez tudo na vida seja uma derivado qualquer de arte. Da mesma forma que todo sentimento deriva do amor.

Ou talvez eu só não tenha crescido ainda.

Se for isso, então, quando eu crescer, quero ser artista.

Ah! E cientista também.

3
jan

28 lições de vida. De um pai aos filhos, antes de morrer

Thomas, Mandy e Lucy - A família de Paul FlanaganPaul Flanagan, inglês, professor de gramática, descobriu que tinha mais uns poucos meses de vida, por conta de um câncer. Ao invés de escalar o Himalaia, tomar drogas e fazer uma orgia, decidiu marcar sua presença na vida de seus dois filhos. Escreveu mensagens, gravou vídeos, espalhou fotos, comprou presentes para futuros aniversários, escolheu livros e deixou bilhetes dentro dizendo porque gostava deles. Deixou sua energia espalhada pela casa.

Dois anos depois, sua esposa encontrou uma mensagem sua em seu antigo computador. Uma carta aos filhos, com 28 lições de vida, que provavelmente não teve tempo de entregar. A tradução, que fiz questão de compartilhar com vocês, está abaixo, feita pela Letícia Sorg, jornalista da Época, autora também da matéria com mais detalhes sobre a história (já tem quase um ano, mas cai bem pra esse início de ciclo). (mais…)

2
jan

Pitaqueiro, opiniático … e teorético

Eu sou daqueles que tem opinião pra tudo. Dou pitaco mesmo, falo o que penso sobre qualquer tema, mesmo que o meu conhecimento sobre o assunto seja raso (o que quase sempre é, como todo mundo) – mas eu deixo isso claro, não finjo que sou especialista em qualquer coisa. E também não sou do tipo que acha que a única opinião que vale é a minha. Ouço, tanto quanto falo. E quando não gosto de determinado tema, não ouço nem falo.

Sou chato, mas sou consistente. E justo. Se eu defendo determinado ponto de vista, raramente você vai me ver mudando de lado (de opinião sim, naturalmente). Se eu fico sabendo de algum novo dado que invalide minha defesa anterior, reavalio, dou meu braço à torcer, numa boa. Mas se isso não acontece, e você não me oferece argumentos suficientes para que eu reavalie minha posição, não adiantam falácias do tipo “ah, você não está informado o suficiente” ou “você só diz isso porque _______”.

Eu gosto de conversar e discutir com pessoas inteligentes e que sabem argumentar.

Depois de um certo tempo de vida – que eu considero metade de minha vida útil, o que vier depois é lucro – eu acabei colecionando algumas teorias, e de vez em quando compartilho com outras pessoas. Vez por outra alguém me pergunta porque eu não escrevo isso em algum lugar. Eu sempre digo que vou escrever, que preciso formular melhor, etc.

Bom, resolvi que vou registrar minhas teorias aqui neste blog. Algumas delas são 100% “minhas”, formuladas do zero nesses anos de papos e pitacos. Outras tem colaboração de 1 ou 2 outras teorias que ouvi durante a vida e acabei desenvolvendo, tentando rebater, criando em cima.

Não chega a ser nada científicamente comprovado, não é fruto de pesquisas ou experiências, é baseado em observação e conversas, como disse. Fique à vontade para discordar – com argumentos ;-).

9
nov

Cada geração tem o Movimento Estudantil que merece

Tenho muito medo do que a Geração Z vai aprontar.

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1
out

Os favelados classe média

Favela Tilt Shift : Chico FerreiraHá algum tempo quero escrever sobre um assunto que me incomoda, desde que mudei para São Paulo, mas que ultimamente tem se tornado tão absurdamente comum, que o incômodo virou indignação. É o fenômeno que eu tomei a liberdade de nomear de “favelados classe média”.

Voltando um pouco na História, quando as cidades, estradas e vias férreas eram construídas (não precisa ir muito longe, Londrina, por exemplo, tem bem menos de 100 anos de idade), podemos avaliar um movimento social bem claro. Os trabalhadores, que se empregavam na construção dessa cidades e vias, ficavam tanto tempo que acabavam transformando suas moradias temporárias em algo mais fixo, traziam família, iam ficando. As esposas e filhos também encontravam trabalho nas redondezas, após ou mesmo durante a construção das cidades. E, em busca de uma vida melhor e oportunidades nesses locais tão novos, formavam as favelas ou invasões, mais tarde transformadas em bairros, comunidades, etc. Pobreza e batalha.

Em cidades grandes como São Paulo, onde estão todas as empresas, todas as oportunidades, onde tudo começa, onde estão os melhores e maiores investimentos, outro fenômeno acabou ocorrendo com o tempo e durante muitos anos também foi forte e bastante evidente: a migração. Pessoas de cidades menores dentro e fora do estado eram atraídas pelas oportunidades de emprego, a maioria para mão-de-obra pouco qualificada. Esse êxodo ainda é atualmente muito marcante na configuração da cidade. Eu costumo dizer que o que menos tem em São Paulo é Paulistano, por conta disso.

Acontece que essas vagas pouco qualificadas não são tão abundantes mais, o que acabou por mudar um pouco o perfil da migração. Como tecnologia, Internet, mídias sociais estão bombando, tem atraído cada vez mais um outro perfil de trabalhadores: jovens, classe média, muitos em seu primeiro emprego e a grande maioria morando sozinha pela primeira vez.

Essa leva de trabalhadores, atraídos pelas oportunidades de trabalho, festas, fama, sucesso, dinheiro e crescimento profissional, são uma versão upgraded dos primeiros. Chegam em busca (ou saem da casa dos pais), aceitam o primeiro trabalho (podendo mudar pouco depois para uma melhor oportunidade), ganham relativamente bem, pagam aluguéis caríssimos e moram mal, muito mal. O foco da moradia é a proximidade do trabalho ou das baladas, ou do metrô (não que isso seja ruim em São Paulo), o restante é secundário. Apartamentos sem estrutura, pouco ou nenhum móvel ou conforto, afinal, pouco ficam em casa mesmo, não importa.

Esses são os Favelados Classe Média.

Obviamente, com o tempo e os anos, podem melhorar a moradia, deixar a casa com sua cara ou até mesmo comprar um imóvel (depois de pagar o carro, talvez), mas você não nota a semelhança? O paralelo?

Bom, era só uma reflexão mesmo, não é pra ter nenhuma conclusão, mas se eu posso deixar uma dica, eu digo para se afastarem um pouco do centro de tudo. Morem um pouco longe, mas não morem mal. Invistam em qualidade de vida, conforto, segurança. Pode não fazer diferença no ápice da balada, mas fará quando você ficar gripado, quando quiser receber alguém em casa, quando quiser fazer uma baladinha particular em seu canto, quando tiver frio pra cacete, entre outros momentos.

Afinal, morando perto ou longe, quem em São Paulo sai de casa sem se programar antes? Você vai se atrasar de qualquer modo.

* Foto: Chico Ferreira em Creative Commons