As pessoas podem e devem mudar

Um dos principais recursos da Internet e das redes sociais é possibilitar que a gente passe vergonha publicamente. E mais ainda se for coisa de anos depois. Quem nunca agradeceu não haver Facebook para registrar suas imbecilidades de 10 anos atrás? Eu sei que você já.

Pois bem, todo dia tem uma caça às bruxas diferente. A bola da vez é do ator e apresentador João Vicente de Castro. Em uma entrevista recente, um jornalista espertão destacou uma frase sua sobre o apresentador Silvio Abravanel Santos no título caça-clique de uma matéria: “Acho homofóbico, misógino, machista”.

Ora, pois, Silvio Santos já não está em seu juízo perfeito, todo mundo sabe. Cada dia faz uma merda diferente e muitas de suas atitudes – sejam por preconceito ou simplesmente senilidade – ofendem pessoas. Recentemente ele colocou uma de suas funcionárias, menor de idade, em uma situação constrangedora e depois ainda ficou-se sabendo que ela sofreria consequências profissionais por não ter se deixado humilhar daquela forma. Sim, estou falando do caso Maísa x Dudu.

Acontece que o “mito” Danilo Gentili saiu em defesa do patrão e atacando João Vicente, o que acabou virando uma caça ao tesouro por posts antigos do João nas redes sociais que fizessem referência ao que ele critica (João participa de um programa na GNT onde frequentemente defende o feminismo). Acharam uns tuites de 2010 e 2011 claramente babacas e preconceituosos.

Caramba! Eu era um puta babaca SETE anos atrás. Há QUATRO anos eu ainda era babaca, só que um pouco menos. Há DOIS anos era uma pessoa muito menos babaca pois foi no início de minha desconstrução em andamento. Hoje eu ainda sou babaca, machista, preconceituoso – só que extremamente menos que 4 anos atrás. Eu melhorei como pessoa, como ser humano, como homem, marido, pai, etc.

As pessoas mudam!

E que BOM que elas mudam, não? Eu mantenho a maior parte das minhas pedradas de ignorância intactas online. Todos os dias eu checo um aplicativo que me mostra coisas que publiquei exatamente 1, 2, 3, 4 anos atrás, naquele exato dia. E como dá orgulho ver umas merdas que publiquei tantos anos atrás e que hoje dão vergonha, que hoje não refletem nem perto do que eu penso ou sinto. Eu mantenho essas babaquices lá pra me lembrarem sempre que possível, que é possível mudar, melhorar, evoluir. Já apaguei alguns, não por vergonha somente, mas por serem ofensivos. O resto eu deixo me dar tapa na cara de propósito.

Sobre o João, eu não posso defender sua legitimidade. Não o conheço, não sei se está fazendo um papel ou se realmente mudou, evoluiu. Eu torço para que seja isso. Já sobre o Gentili eu posso dizer que NADA que aquela pessoa fale nesse sentido pode ser levado a sério no momento, compartilhado, comemorado. Ele não é “mito” nenhum. Saiu em defesa do contra-cheque e pra ele é muito bom atacar alguém que defende o feminismo, especialmente se for um homem. Danilo é uma pessoa que faz piada escrota que ofende pessoas, ataca minorias, humilha gêneros. Alguém que ganha dinheiro desfazendo de outras pessoas, que não são a ponta mais forte da corda.

Danilo defende que “o mundo está chato” porque ele não pode mais zoar e faltar o respeito com mulheres (2017), objetificar e ser racista (2017), chamar preto de macaco (2015) ou fazer piada consigo mesmo se “xingando” de viado. Ele acha que “a patrulha do politicamente correto” está acabando com a comédia. A gente podia lembrar ao Danilo que a comédia tem uma de suas origens na sátira, onde a imensa parte dos “alvos” era de nobres, ricos, poderosos, que riam das encenações que os criticava, uma poderosa arma política, uma ferramenta de crítica social. Mas é preciso ter inteligência para fazer piada com os opressores. Chutar os oprimidos é fácil, quem vai sair em sua defesa? Quem vai ser prejudicado por fazer piada “com a pessoa errada”?

Nada a exaltar aqui. Danilo Gentili só quis dar seu “lacre”, fazendo exatamente o que fez o jornalista que publicou o caça-cliques, querendo expor alguém sem olhar pro próprio rabo.

Todo mundo tem o direito de mudar e DEVE mudar. Até você, Danilo.

Photo by Ross Findon on Unsplash

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Escrito por Manoel Netto

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