Eleições, clichês e o mesmo de sempre

A apuração do segundo turno das eleições 2010 nem precisou acabar para que Dilma fosse considerada eleita como a primeira presidenta eleita do Brasil. E mesmo antes disso, os comentários ofensivos e alguns absurdamente preconceituosos e até agressivos, choveram no Twitter. É que grande parte dos presentes nessa rede “social” é do Sul ou Sudeste do país, e alegam, cheios de razão e “moral”, que a “culpa” (desculpem tantas aspas, mas elas são mesmo necessárias) pela eleição de Dilma é dos nordestinos – ignorando, obviamente, que alguns estados do norte do país não pertencem a essa região, mas isso pouco importa, certo?

Aqui dá pra notar claramente duas atitudes bastante estúpidas: o óbvio preconceito com o norte do país, associando à democracia de escolher seu governante como burrice, voto comprado, etc etc.; e o fato de desconhecer seus próprios estados e as estatísticas que comprovam o quão acirrada foi a eleição (não por mérito dos candidatos, mas por pura falta de melhor opção, em minha opinião).

Se está tão difícil perceber isso, vamos a alguns números, direto da divulgação oficial das apurações e replicadas em diversos sites de acompanhamento.

Dilma vs Serra, por região
  • Geral: Dilma 56% vs Serra 44%
  • Rio Grande do Sul: 50% Serra vs 49% Dilma (menos de 1%)
  • Santa Catarina: 56% Serra vs 43% Dilma
  • Paraná: 55% Serra vs 44% Dilma
  • São Paulo: 54% Serra vs 45% Dilma
  • Rio de Janeiro: 60% Dilma vs 39% Serra (mesmo com a polêmica do pré-sal)

Meus caros e raríssimos leitores, esses são números que se apresentem para pessoas que associam o voto em Serra como um ato de consciência e inteligência e ao mesmo tempo essas características serem uma questão geográfica? Se assim fosse, o RS, que há décadas deseja se separar do Brasil, deveria eleger o Serra com pelo menos 90% dos votos válidos. Aliás, essa margem deveria ser seguida pelos outros estados do sul, além de São Paulo (ahhh, mas aqui vão dizer que o índice está sujo por conta da alta quantidade de imigrantes nordestinos). E o que dizer do Rio de Janeiro, onde as pessoas temem a privatização do pré-sal ou a distribuição do rendimento aos outros estados? Elegeram Dilma com 60%. Absurdo, não?

O que estou querendo dizer com isso tudo é que o Brasil é um país enorme, cheio de características regionais muito fortes e bastante diverso. Reduzir uma pessoa ou grupo de pessoas a determinada característica ou estado mental por conta de sua localização geográfica é mesquinho, além de ignorante. Não olhar para o próprio umbigo e perceber que o que se critica está do seu lado, no seu vizinho, dentro de sua casa até, é antes disso, burrice, tiro no pé.

UPDATE: Dilma se elegeria sem a vantagem do Norte e Nordeste. (Bingo!)

Quem elegeu Dilma? Os brasileiros votantes. Foi unânime? Não. Foi satisfatório? Absolutamente não, basta notar a alta taxa de abstenção, provocada pela enorme insatisfação do povo com os candidatos apresentados. Mas foi acirrado, cacete!

E agora, o que fazer? Xingar, praguejar, fazer guerrinha inútil? Vai mudar alguma coisa? Como disseram ontem, estamos no mesmo barco. Votando ou não votando, estamos todos na mesma merda. Cabe a cada um fazer o seu e pronto. Entra governo, sai governo, não vejo nada mudar efetivamente. Agora é cobrar o bom uso do imposto que pagamos sem questionar.

* Fonte do gráfico e números: UOL Eleições

Written by Manoel Netto

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