em Internet

SawLadyUPDATE: This interview was translated to portuguese, but you can access the Google Translated page here.

A Internet, vez por outra – quando me dou a chance, quando estou aberto a percebê-la de outras maneiras – me surpreende e me encanta. Algumas coisas que acontecem, eu simplesmente não acreditaria se tivessem me avisado 20 anos atrás. E que bom que acontecem.

Alguns dias atrás, eu estava em casa vendo filmes. Foi uma sessão de Cinema em Casa, porque estava friozinho, gostoso, ótimo pra ficar em casa debaixo das cobertas. Que melhor motivo? Daí, como de costume, eu fiz um comentário sobre um dos filmes (Another Earth / 2011) no Twitter. A surpresa foi que, lá de longe em New York – USA, a artista que tocou a música do momento mais interessante do filme, me respondeu com uns links sobre o seu trabalho.

Senti como de outra vez quando fiz um comentário qualquer para o Kevin Mitnick, o hacker mais famoso do mundo, e ele me respondeu. É muito interessante essa sensação de proximidade, que boa parte dos mais novos não percebe porque já nasceu nessa realidade, nesse mundo conectado e com 6 graus de separação.

Rapidamente eu dei uma pesquisada na SawLady (a “Moça do Serrote” numa tradução tosca minha) e vi várias coisas sobre seu trabalho e sua arte. Entrei em contato, batemos um papo via Twitter e perguntei se ela responderia umas perguntas para o blog. Natalia Paruz é uma moça de Israel, muitíssimo simpática e talentosa, moradora de New York e sua arte é tocar um instrumento inusitado: o serrote (musical saw).

Entrevista com Natalia Paruz, the SawLady

Manoel Netto: Natália, em primeiro lugar, por que o serrote?

Natália Paruz: Eu fui atraída por seu som único, que é angelical, espiritual, profundo e é feliz e triste ao mesmo tempo, como a vida. Mas também fui atraída pelo visual – não o fato de ser estranho, já que é uma ferramenta que eu toco, mas porque, ao tocá-lo, todo o instrumento se move, dança, criando um efeito visual e não somente um efeito sonoro.

MN: Como aconteceu de você vir a tocar no filme (Another Earth)? Como te contataram?

NP: O diretor do filme, Mike Cahill, assistiu minha performance no metrô de New York e isso fez com que ele tivesse a ideia de incorporar o instrumento no filme. Ele me convidou para escolher uma música, tocá-la e então gravá-la para a trilha sonora. Ele também me pediu que treinasse o ator William Mapother, que fingiu tocar o serrote no filme.

(A cena do filme não está mais disponível no YouTube. Mas você pode ouvir somente a música, aqui.

MN: Você compõe suas próprias músicas ou interpreta de outros autores?

NP: Eu não componho, sempre trabalho com compositores. Recentemente, me pediram para fazer uma releitura de uma música para um projeto em Londres. Eles me deram a música e pediram que eu fizesse minha versão. É praticamente compor, mas em cima de um trabalho pronto. O resultado foi esse:

Já trabalhei com vários compositores, mas meu favorito é Scott Munson, que foi quem compôs a música da cena de Another Earth. Ele é um compositor de extraordinária profundidade e versatilidade, e gosta de testar os limites da capacidade do instrumento. Isso me impulsiona a inventar novas técnicas para atender as demandas da música.

MN: Você só faz shows no metro ou faz algum tipo de concerto, coisas do tipo?

NP:  Tocar no metrô é mais um hobby que um trabalho em si. Eu adoro, mas profissionalmente atuo como Musicista Freelance. Toco em concertos com orquestras, gravo trilhas para outros artistas que gostariam de um som como o meu em suas músicas, participo de trilhas sonoras para comerciais, filmes, etc.

Muito do que eu faço é resultado de contatos feitos por pessoas que me viram tocar no metô (quando você toca num espaço público, você nunca sabe quem pode passar e te ver/ouvir), assim como via Internet, por pessoas que procuram por artistas que tocam esse instrumento e acabam me encontrando.

MN: Como a Internet te ajuda ou ajudou?

NP: Eu não acho que eu teria ido tão longe se não fosse a Internet. Eu sempre fico maravilhada quando alguém de um país muito distante curte a minha fanpage no Facebook. Por conta de meus videos no YouTube, pessoas de todo o mundo ficam expostas à minha música. Jornais de outros lugares, como India e Indonesia, escreveram sobre mim – da mesma forma que você está escrevendo sobre mim agora – sem nunca sequer terem me visto “ao vivo”. Sem a Internet eu nunca teria sido capaz de atingir o mundo, teria sido conhecida apenas localmente.

MN: E o seu blog? Você o utiliza para divulgar sua arte?

NP: Eu tenho que admitir que não tenho blogado muito ultimamente… Facebook, Twitter, o site, um blog… é muita coisa para tocar ao mesmo tempo, que às vezes eu sinto que preciso de um ajudante :). Mas, respondendo sua pergunta – sim, eu uso bastante para divulgar minha música, mas não somente isso. Existe muito preconceito com os artistas de rua (buskers), muita gente acredita que se trata apenas de pedir dinheiro, o que não é verdade. Busking se trata de tocar as pessoas, quebrar barreiras invisíveis, engajar pessoas em uma coletiva e espontânea experiência nas ruas, no espaço aberto, no momento, com você. E eu uso o blog para mostrar isso. A música é apenas uma desculpa, os meios para um fim, que é a comunicação.

MN: Vi em no documentário Apple Sounds que você queria ser uma dançarina, mas por conta de um acidente, os planos mudaram. Há alguma lição nisso tudo?

NP: Eu acredito que a única lição que pode existir é a de que sempre há uma segunda, terceira, quarta chances. Nós podemos pensar que algo é a ÚNICA coisa para nós e daí ela nos é tirada e ficamos devastados. Mas o que nós não vemos é que talvez essa seja a forma do mundo nos dizer que há tantas outras coisas em nossas vidas, coisas que ainda nem conhecemos. E coisas boas podem vir de algo que consideramos ruim. Nós só precisamos aceitar e ter paciência – o mundo não para: aguarde, e veja o que acontece.

MN: Natalia, MUITO obrigado por compartilhar conosco. Como encerramento, gostaria de deixar alguma mensagem para meus leitores no Brasil?

NP: O Brasil é um país que me deixa maravilhada porque as pessoas tem a música em seus corações. O Carnaval do Brasil é famoso em todo o mundo, e nas músicas (em geral) onde há ritmos brasileiros (que todo o mundo aprendeu de vocês) conseguimos ver a inclinação de vocês para a alegria, a vida. Que povo maravilhoso. Estou muito agradecida por essa oportunidade de ter contato com você e talvez fazer alguns novos amigos.


Natalia, thanks again for this great interview. I hope you can visit our country soon, and if I get to NY some day, I’ll meet you ‘in real life’ for sure 😉

Conheça mais sobre o trabalho da Natalia em seu site: SawLady.com

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