em Pessoal

Bandeira de SPEsse é um texto sobre alguns temas comuns e recorrentes nas redes sociais por essas bandas, não necessariamente sobre a cidade de São Paulo em si, mas eu não queria colocar um título direto e objetivo, porque não quero gerar flames com “leitores de títulos” aqui neste meu blog.

Então, para opinar, se prepare, você tem que ler o texto todo ;-).

Hoje pela manhã ao acordar, dou uma olhada no meu Twitter e percebo uma mensagem que considerei infeliz (e foi o que respondi: “que comentário infeliz”). Depois de receber uma resposta, resolvi que escreveria esse texto. Não como uma “réplica”, mas como uma proposta de reflexão. De todo mundo. Eu inclusive, reflito enquanto escrevo e provavelmente reescreverei trechos antes de publicar.

Os temas citados no primeiro parágrafo são: preconceito, discriminação, infantilidade, inocência e ignorância. Eu coloquei infantilidade no meio porque normalmente falamos por falar, cuspimos a nossa opinião na cara dos outros com a alegada justificativa da sinceridade, do “falo o que penso”, do nosso Dr House interior, mas eu vejo muitas vezes apenas como aquela criança que aponta o coleguinha deficiente da primeira série e diz: eu tenho dois braços e você não te-em.

O assunto é: migração

Canso de ouvir ou ler por aí, pessoas falando coisas como “nordestinos, voltem para suas casas”. Acho bacana como esse sentimento “nacionalista” aflora na classe média padrão, como um desabafo, quase uterino de sentimentos inocentes e pueris. Alguns sequer sabem da origem dessas migrações, que são muitas ao longo da história do Brasil, não necessariamente envolvendo São Paulo e igualmente nem todas envolvendo nordestinos. Mas vamos nos ater, por enquanto, ao sentimento.

O que motivou esse texto, segue abaixo. Primeiro o @Gravz mandou um texto genérico sobre pessoas que se mudam para São Paulo e ficam falando mal da cidade. Genérico. Imagino que ele estava não somente falando de forma genérica para não despertar flames de preconceito, mas também sendo generalista. Porque afinal, São Paulo atualmente é o “polo da social media” (talvez por isso a palavra “hipster” está no texto dele) e tem atraído pessoas de diversas partes do Brasil (já falei sobre isso). O texto do @gravz:

gravz-logica-de-mudar-pra-sampa

Esse texto tem quase um endereço. Dá pra notar a indireta. Não foi preconceituoso, não falou de raças ou regiões específicas, criticou uma postura, que é se mudar pra uma cidade e falar mal dela. Obviamente a simplificação das razões (incompetência ou hipsterismo) é onde se esconde o incômodo e a tal da indireta. Digo “obviamente” porque sabemos, até o Gravz sabe, que existem infinitas razões para que alguém se mude para um local que “odeia”, uma delas é a necessidade, como disse um comentarista em resposta a esse tweet.

Mas aí, vem a @Srta_Nath e reposta o texto e imprime nele suas próprias opiniões, cheias de preconceito direcionado. Acompanhe:

nath-primeiro-tweet

Esse foi a origem. Perceba que ao direcionar (e esquecer completamente que o que menos tem em São Paulo é paulistano, como brincamos sempre) a Nathália carregou o texto do Gravataí com o preconceito que é dela, não dele (pelo menos nesse texto) e o utilizou para endossar sua opinião. Na visão da Nathália, 90% dos nordestinos que residem em São Paulo odeiam a cidade, aqui estão por incompetência ou hipsterismo e, pior, não fazem nada por essa terra.

Como me incomodou, eu respondi que foi um comentário infeliz. Aí, infelizmente, piorou:

nath-segundo-tweet

nath-terceiro-tweet

E a cereja do bolo:

nath-quarto-tweet

Explicando algumas coisas

Vamos lá. Em primeiro lugar, até mesmo paulistanos falam mal de São Paulo. Falar mal ou reclamar é uma forma de protesto, todo mundo exercita isso em algum momento da vida. Eu adoro Sampa, adotei a cidade como minha há mais de 4 anos e em alguns momentos eu falo mal, reclamo mesmo. Faz parte de avaliar e avaliar-se. Eu falo mal de Salvador, minha cidade natal, estando aqui ou estando lá, entre amigos. Quem não reclama do trânsito em SP não anda de ônibus nem de carro. Quem não reclama do fedor do Rio Pinheiros não precisa tomar o trem da linha 9 todo dia. Quem não reclama das pessoas que entram desesperadas no metrô em horário de pico, não precisa enfrentar essa rotina.

Segunda coisa, não é “culpa” de nordestinos ou de qualquer outra parte do país (quem sabe Brasília tenha alguma pontinha nisso) que São Paulo seja um pólo de investimentos, em todas as indústrias, e com isso atraia (e precise de) mão de obra externa. Se tirarmos todos os profissionais não-nativos da cidade, isso aqui vai para o buraco. São Paulo cresceu mais que seu próprio tamanho e hoje agrega cidades em seu redor (como Osasco, onde a Nathália mora). Também não é culpa que problemas possam existir em outros lugares, como a grande seca de 60 no nordeste, a falta de políticas sociais e econômicas mais fortes em outras regiões, outra grande seca no final do século XIX. Citando esse artigo na Wikipedia:

A migração no Brasil não ocorreu nem ocorre por causa de guerras, mas pela inconstância dos ciclos econômicos e de uma economia planejada independentemente das necessidades da população.

Sobre o tal “ódio” citado, eu acredito muito que as pessoas não odeiam verdadeiramente São Paulo. O que rola bastante é o ódio de ter que vir pra São Paulo, ou qualquer outro canto do planeta, para poder viver, para ter melhores oportunidades, para dar melhores condições à família – mesmo muitas vezes deixando-a “para trás”, por necessidade ou falta de opção. Esse ódio é pela situação, pelo descaso dos órgãos públicos, pela distribuição desigual de recursos.

E o pior de tudo é generalizar que quem “suja” a cidade (eu entendi sua analogia, Nathália, estou apenas usando-a) é nordestino. Os mal educados, os pobres, os que não tiveram acesso à educação/informação/cultura, os “ingratos” que vivem aqui e não “colaboram” – segundo a Nathália, trabalhar, gerar riqueza para a cidade, pagar impostos para a cidade, não faz parte do “cuidar e tornar melhor” a cidade – são todos nordestinos. Isso sem falar que, levando a analogia ao pé da letra, muitos dos que limpam de verdade a cidade (os coletadores, faxineiros, camareiros) são do nordeste.

Muito mais proveitosa, inteligente e madura seria essa energia movida em “mandar os nordestinos de volta”, se ela fosse convertida em exigir do governo que melhore sua política interna, que empresas enxerguem outros pólos no Brasil (isso, felizmente, está acontecendo mas poderia ser mais rápido), que se abram oportunidades de crescimento pessoal e profissional em todo o país e não somente no Sudeste. E que, claro, se resolvam os problemas que uma cidade enorme como São Paulo, e que atrai sempre mais pessoas, como o transporte público, melhoria nas vias, melhor distribuição da saúde e educação.

Aproveitemos essa maravilhosa (cof, cof) época de eleição e vamos ter discussões proveitosas e produtivas. “Voltem pras suas casas” é coisa de 5a série, recém saído do primário em que apontávamos os coleguinhas sem braço.

Odeio São Paulo. Amo São Paulo. Tudo tem seu momento.

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